terça-feira, outubro 05, 2010

Dois artigos interessantes na imprensa de hoje

Perguntas de um ministro

"1. Enquanto os “pequenos poderes” da bola se reorganizam nos sofás dos hotéis e nas mesas das marisqueiras, o ministro que tutela o desporto em Portugal foi ver um jogo de futebol europeu no estádio do FC Porto. Fez bem em escolher um jogo internacional, integrado numa competição organizada pela UEFA, para regressar aos campos. Fez bem, digo, porque assim terá assistido serenamente a um jogo, sem se questionar em demasia.
Façamos o exercício alternativo de a visita ministerial coincidir com um jogo a contar para o campeonato principal de futebol. Enquanto titular dos poderes públicos que o Estado detém na organização e disciplina das atividades desportivas, delegados, para o futebol, na Federação e na Liga, o ministro Silva Pereira teria necessariamente que se interrogar se o jogo organizado pela Liga estaria em conformidade com a lei do país – uma vez que estamos já muito longe do dia 1 de Julho de 2010, data a partir da qual, segundo alguns, deveria estar em vigor a nova distribuição de competências entre a Federação e a Liga. Esta interrogação encerra um dado muito simples: estarão a Federação e a Liga a respeitar a lei nas suas provas durante esta época desportiva? E um outro: terão poderes para fazerem o que atualmente fazem?

Imaginemos, pois, que Silva Pereira arriscaria presenciar, naquele estádio ou noutro qualquer, um jogo da liga principal. E, como jurista que é, arrisquemos conjeturar sobre as perguntas que faria a si mesmo.

Ao ver os árbitros entrar em campo com os jogadores, perguntar-se-ia:
– será que a Comissão de Arbitragem da Liga podia ter nomeado a equipa de arbitragem?
Ao ver o árbitro mostrar um vermelho a um jogador e expulsar um treinador, questionar-se-ia:
– será que a Comissão Disciplinar da Liga poderá “castigar” estes jogadores e este treinador ou estes poderão alegar que não têm que cumprir os “castigos” da semana por falta de poderes da CD para os punir?
Ao ver duas decisões surpreendentes do árbitro numa das áreas e ao pensar nas suas consequências, indagar-se-ia:
– será que o observador da equipa de arbitragem, nomeado também pela CA, pode avaliar o desempenho dos árbitros e dar-lhes a nota do jogo, que contribuirá para a respetiva classificação no fim da época?

E, já assoberbado com tão poucas perguntas, pararia por aqui. Ainda concluiria o nosso ministro que é mais fácil embrulhar um líder da oposição partidária com um orçamento de chumbo do que responder a perguntas difíceis.


2.O futebol e Carlos Queiroz foram usados durante este Verão para uma sibilina manobra de diversão. O bombeiro de serviço foi Laurentino Dias, autorizado a sair da sua habitual discrição, e a causa ideal foi a luta contra o doping. A máquina de propaganda só parou quando Passos Coelho disse a frase mágica: “Com mais impostos, não há orçamento.” Entrincheirado o líder do PSD, Teixeira dos Santos fechou-se nos números da crise financeira, Silva Pereira (é o mesmo das perguntas) dramatizou com a crise política e Laurentino Dias saiu de cena (mas será recompensado!). Foi bem jogado. Mas não abusem! Ainda não estamos todos a dormir…"

Ricardo Costa, in Record

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Alarme Villas-Boas

O treinador do FC Porto mostrou uma face ainda oculta, de descontrolo e indignação obstinada. Pura encenação.
André Villas-Boas quis criar uma cortina de fumo que escondesse o relativo fracasso que foi o empate em Guimarães e arranjou um caso de arbitragem sem sentido. Já na segunda-feira, não houve quem tivesse conseguido vislumbrar qualquer penálti no célebre lance do minuto 77,53, mas AVB bateu o pé, desafiou os jornalistas e pediu explicações a Vítor Pereira. Nada.
A verdade é esta: o FC Porto perdeu os primeiros pontos na Liga e não foi por causa da arbitragem. Quem tocou com a mão na bola foi Ruben Micael. Ponto. Mas AVB tinha de fazer algo, saiu-se mal.

(Post de António Varela, no Record)

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